As idéias aqui expressas são reflexões que adquiro através de leituras e aulas, observações e conversas com amigos (e outras pessoas, não necessariamente amigas). São opiniões apenas, não representam nenhuma verdade absoluta nem se pretendem referência a alguém.
Seguem artigos, contos, poemas, entrevistas e outras peripécias.
Obrigada leitores.
E boa leitura.
E era dia do operário de construção. Dia do
fotógrafo, do padeiro, do dentista, do professor. Coisa fantástica é ser todas
essas profissões, homens máquinas que produzem em série cuidado, objetos ou
conhecimento. E achei normal um dia para representá-los. Mas, o dia de hoje é
mais do que ser de profissão, ou está longe das ciências exatas, é para quem
possui uma ciência comum: ser mãe.
Mas, mãe?! É tão natural sê-lo! Sê-lo uma ou
muitas vezes. Biológica ou de criação. E é necessário um dia especial para
comemorar, divertir, presentear as doces ou amargas senhoras que repetem a
eterna circunferência da vida e fazem com que o mundo continue a girar?! Que
aprendem de maneira mística, divina talvez, a fórmula certa para perpetuar o
amor?!
Mãe, nome cuja nasal o torna musical. De uma
musicalidade suave. E faz indagar: como compreendem sentimentos turbulentos?
Como lidam com as ausências? Como sabem ser tristes, mesmo quando felizes? E
como sabem amar, mesmo quando odeiam?
Como são protetoras... Como cadelas e gatas
que defendem suas crias com garras e dentes. Na natureza pura, esse amor não é
menor. Mas, é amor ou instinto? E seria o amor instintivo?
Como sabem libertar e encontrar a beleza
onde quer que seja.
Mas, Mãe?! É tão simples sê-lo.
Sim. É um simples e complexo selo. Um
símbolo de amor profundo.
E só faz notar como as coisas mais sonhadas
e lindas são as mais triviais. Mãe, todo mundo tem uma, ainda que invisível,
imaginável, distante ou desconhecida... Mãe é o critério básico para existir a
vida na maioria das espécies. Na nossa espécie é assim. Por isso reservar
dentro de 365 dias um só para prestigiá-la.
E há que se pensar em virgem mãe, em terra
mãe ou outras formas de maternidade cuja arte fundamental consiste em nos dar a
vida.
Dar-nos a vida! De que maneira inconsciente,
despretensiosa e instigante ela possui essa magia de dar a vida? E não seria
Deus esse progenitor. Mas, se a vida é fruto de um ventre feminino e todas as analogias
feitas à vida a isso se referem, então, Deus seria uma bela senhora de olhos
doces e varinha de goiabeira na mão?
Que tempos maravilhosos são esses em que vivemos! Carrego junto ao peito o livro que quero ler escrevo em murais, blogues janelas, muros, calçadas os pensamentos transcendem as paredes cerebrais saltam dos olhos invadem sofás camas óculos mãos. no entanto, as palavras se distraem se dissolvem. desalinham-se difamam-se dos sentidos se separam. na multidão ouço vozes que vem de todos os lados. sobre o peito tantas frases falam coisas que nem sei. sob meus pés signos absortos me penetram me transformam e sou tanto e sou nenhum não há revolta nem crime nem dilema nem certezas não há calma nem há medo só verdades flutuantes agitação baixaria sob a liquidez dos atos, falas, olhos, sentimentos meu peito nem indaga cala cala e absorve poeira eco e nada.
Boi comendo Boi comendo Boi comendo Boi bufando Boi mugindo Rumicomendo Enquanto velhos de chapéus negros Cobertos de estrumes e lama Lamentam peixes perdidos Por entre coqueiros verdes E por entre bananais E por entre laranjeiras Bois ruminam suas vidas Empinando as bundas gordas E balançando os rabos alegres.
E chegou o fim do ano e antes que o novo inicie é preciso por a mão na consciência do bolso. E sempre damos um jeitinho de não ficar fora dessa. As festas são tão bonitas. As cores encantadoras, e as propagandas de TVs enchem os olhos e a imaginação.
O Natal chega primeiro. Nascimento de Jesus. Celebremos, oh, irmão, e viva o cartão de crédito! E viva as compras a prazo e vivas os shopping Center. E viva os supermercados. Jesus espera sua hora pra ser vívido também. Porque agora, tão preocupados com a ceia da meia noite, com a sandália prateada, com o terno azul marinho, os presentes das crianças, os convites dos parentes, as passagens de avião é impossível dar tempo de lembra o porquê de existir uma data tão distinta das outras datas do ano. Pensemos nisso depois.
E Jesus, morto na cruz, vai ficar lá esperando. Mas depois, de pança cheia. Com sandália pra tirar, e com casa pra limpar, e com comida sobrando que tem que jogar no lixo, parentes que já esgotaram todo o saco de paciência que o Papai Noel nos trouxe, o melhor mesmo que se faça é descansar. Natal é data estressante. Tanta coisa pra fazer, organizar e comer que depois ninguém nem lembra do pobre lá pendurado com espinhos na cabeça.
E mais uma vez se passa o dito aniversário só ele não comemora porque não foi convidado a penetrar nas casas e nos corações humanos. A cear bolos de paz e docinhos de esperança. Ele não sopra as velinhas e não ouve parabéns. A razão virou do avesso e o próprio aniversariante fica de fora da festa.
Tenho uma pedra no sapato
descalço
ela me entra no calcanhar.
Tirar o lacre como
quem tira palavras da boca
como quem arranca palavras da boca
com um alicate
que vai no fundo da garganta
e a palavra, ainda prematura,
salta
assustada.
Na antiguidade grega, a palavra idiota significava a pessoa que estava alheia às questões do estado, ou seja, as que, por conseqüência da organização social daquele povo, não participavam do processo democrático. Esse sentindo evoluiu, coerentemente, para alienado e hoje engloba uma série de sentidos que definem uma espécie de pessoa que pouco contribui, mas muito atrapalha o processo de evolução social.
As muitas barbáries humanas, como assassinatos, estupros, roubos, terrorismos assustam, destroem e ferem. As tragédias naturais extinguem países e mesmo, civilizações inteiras. Porém, as pequenas barbáries cometidas no dia a dia por conseqüência da idiotice são piores, porque levam, não só à violência física, mas à violência mental, às doenças graves do corpo e do espírito.
E se na antiguidade os idiotas não tinham vez no processo democrático, hoje eles interferem com suas mãos devastadoras e transformam o diálogo em autoritarismo. E tentam transformar o mundo no universo vil a que estão habituados. O idiota de antes não carregava consigo toda a carga destrutiva que o de hoje possui.
Problemáticas sociais e individuais como analfabetismo, fanatismo, inveja, medo, impaciência prejudicam a vida em sociedade. Mas a pior problemática é a idiotice, porque o idiota é surdo por opção e só escuta e entende o que seu nível de capacidade mental e arrogância são capazes de apreender.
O idiota é cego por seleção. E só enxerga o que lhe convém, e usa a visão deturpada sempre para prejudicar, subjugar ou manipular alguém. Os sentidos do idiota estão sempre com direcionamento depreciativo. Desde o tato ao paladar. Pois não sente outro gosto, senão o da desgraça alheia, não toca em algo senão para danificá-lo
De todos os vermes e cânceres que atingem a humanidade, a idiotice é a pior das dores. De todos os problemas sociais e todas as misérias, a idiotice é a mais agressiva. Porque o idiota adultera o ambiente em que habita. Ele agrega todos os sentimentos corruptos, pobres e podres, todas as misérias, todas as moléstias que permeiam o espírito humano.
O idiota é o mais ordinário dos ignorantes, porque, na sua idiotice, não se compreende ignorante, mas sabedor daquilo que não é capaz de assimilar. O idiota é um ser corrosivo, nocivo por natureza. A idiotice é uma doença tão grave, que qualquer esperto, mesmo cético diria: Deus me livre da idiotice.