A VISITA

A VISITA
Foto: Núbia Rodrigues

sábado, 29 de dezembro de 2012

PEDIDO


Que me desculpem os hiperativos

que vieram ao mundo para fazer a diferença

que não se levantam pela manhã senão para brilhar

que se destacam e chamam a atenção ao passarem pela rua cheios de graça.

Ah, que me perdoem os que pensam e logo existem

e os que nunca desistem

e os que vieram para transformar

Perdoem

se vim ao mundo para ser

ser humano e só, igual a outros no mundo.

Perdoem

se vim com essa passividade morcegante

para espectar as mudanças

e admirado, perguntar: quem fez?

Estrelas, mártires, baluartes da paz e das revoluções

deixe-me ficar em silêncio

dentro da minha caixinha

sem necessitar de plateias

sem ser referência a ninguém.

Pois, se vim ao mundo

foi para falar baixinho

para escrever escondido

em folhas finais de cadernos

Para andar em cantos de calçadas

de cabeça baixa

e chapéu escuro

para ninguém me ver.


Núbia Rodrigues

domingo, 13 de maio de 2012

SOBRE O DIA DAS MÃES

E era dia do operário de construção. Dia do fotógrafo, do padeiro, do dentista, do professor. Coisa fantástica é ser todas essas profissões, homens máquinas que produzem em série cuidado, objetos ou conhecimento. E achei normal um dia para representá-los. Mas, o dia de hoje é mais do que ser de profissão, ou está longe das ciências exatas, é para quem possui uma ciência comum: ser mãe.

Mas, mãe?! É tão natural sê-lo! Sê-lo uma ou muitas vezes. Biológica ou de criação. E é necessário um dia especial para comemorar, divertir, presentear as doces ou amargas senhoras que repetem a eterna circunferência da vida e fazem com que o mundo continue a girar?! Que aprendem de maneira mística, divina talvez, a fórmula certa para perpetuar o amor?!

Mãe, nome cuja nasal o torna musical. De uma musicalidade suave. E faz indagar: como compreendem sentimentos turbulentos? Como lidam com as ausências? Como sabem ser tristes, mesmo quando felizes? E como sabem amar, mesmo quando odeiam?
Como são protetoras... Como cadelas e gatas que defendem suas crias com garras e dentes. Na natureza pura, esse amor não é menor. Mas, é amor ou instinto? E seria o amor instintivo?

Como sabem libertar e encontrar a beleza onde quer que seja.
Mas, Mãe?! É tão simples sê-lo.
Sim. É um simples e complexo selo. Um símbolo de amor profundo.
E só faz notar como as coisas mais sonhadas e lindas são as mais triviais. Mãe, todo mundo tem uma, ainda que invisível, imaginável, distante ou desconhecida... Mãe é o critério básico para existir a vida na maioria das espécies. Na nossa espécie é assim. Por isso reservar dentro de 365 dias um só para prestigiá-la.

E há que se pensar em virgem mãe, em terra mãe ou outras formas de maternidade cuja arte fundamental consiste em nos dar a vida.
Dar-nos a vida! De que maneira inconsciente, despretensiosa e instigante ela possui essa magia de dar a vida? E não seria Deus esse progenitor. Mas, se a vida é fruto de um ventre feminino e todas as analogias feitas à vida a isso se referem, então, Deus seria uma bela senhora de olhos doces e varinha de goiabeira na mão?

NOSSO TEMPO

Que tempos maravilhosos são esses em que vivemos!
Carrego junto ao peito o livro que quero ler
escrevo em murais, blogues
janelas, muros, calçadas
os pensamentos transcendem as paredes cerebrais
saltam dos olhos
invadem
sofás
camas
óculos
mãos.
no entanto,
as palavras
se distraem
se dissolvem.
desalinham-se
difamam-se
dos sentidos se separam.
na multidão ouço vozes que vem de todos os lados.
sobre o peito tantas frases falam coisas que nem sei.
sob meus pés signos absortos
me penetram
me transformam
e sou tanto e sou nenhum
não há revolta nem crime
nem dilema
nem certezas
não há calma
nem há medo
só verdades flutuantes
agitação
baixaria
sob a liquidez dos atos, falas, olhos, sentimentos
meu peito nem indaga
cala
cala
e absorve
poeira
eco
e nada.
Boi comendo
Boi comendo
Boi comendo
Boi bufando
Boi mugindo
Rumicomendo
Enquanto velhos de chapéus negros
Cobertos de estrumes e lama
Lamentam peixes perdidos
Por entre coqueiros verdes
E por entre bananais
E por entre laranjeiras
Bois ruminam suas vidas
Empinando as bundas gordas
E balançando os rabos alegres.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

CRÔNICA - O ANIVERSARIANTE


E chegou o fim do ano e antes que o novo inicie é preciso por a mão na consciência do bolso. E sempre damos um jeitinho de não ficar fora dessa. As festas são tão bonitas. As cores encantadoras, e as propagandas de TVs enchem os olhos e a imaginação.
O Natal chega primeiro. Nascimento de Jesus. Celebremos, oh, irmão, e viva o cartão de crédito! E viva as compras a prazo e vivas os shopping Center. E viva os supermercados. Jesus espera sua hora pra ser vívido também. Porque agora, tão preocupados com a ceia da meia noite, com a sandália prateada, com o terno azul marinho, os presentes das crianças, os convites dos parentes, as passagens de avião é impossível dar tempo de lembra o porquê de existir uma data tão distinta das outras datas do ano. Pensemos nisso depois.
E Jesus, morto na cruz, vai ficar lá esperando. Mas depois, de pança cheia. Com sandália pra tirar, e com casa pra limpar, e com comida sobrando que tem que jogar no lixo, parentes que já esgotaram todo o saco de paciência que o Papai Noel nos trouxe, o melhor mesmo que se faça é descansar. Natal é data estressante. Tanta coisa pra fazer, organizar e comer que depois ninguém nem lembra do pobre lá pendurado  com espinhos na cabeça.
E mais uma vez se passa o dito aniversário só ele não comemora porque não foi convidado a penetrar nas casas e nos corações humanos. A cear bolos de paz e docinhos de esperança. Ele não sopra as velinhas e não ouve parabéns. A razão virou do avesso e o próprio aniversariante fica de fora da festa.

sábado, 8 de outubro de 2011

Os pés

Tenho uma pedra no sapato
descalço
ela me entra no calcanhar.
Tirar o lacre como
quem tira palavras da boca
como quem arranca palavras da boca
com um alicate
que vai no fundo da garganta
e a palavra, ainda prematura,
salta
assustada.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011


Hoje quero ficar ausente
sem preguiça, medo ou silêncio
sem pensamento
canetas
sem tempo
sem dar resposta ao vento
sem ironia
sem poemas
vazia.

Em mim há sempre uma palavra reprimida
Sem som, eco ou sombra
Que não exprime gozo nem a dor
Que não é dita nem mesmo no escuro
Mas fere minha alma com seu silêncio
Em sua ausência de sentido me consumo
Me rasgo o corpo e sangro e esgoto
Quando me salta dos olhos, num espanto.

ESCOLHAS ERRADAS


Saio às ruas como quem usasse roupas pelo avesso
Meus passos ecoam com o som dos meus sapatos
Sinto-me nua, como quem chegasse ao fim no começo
Tudo me fere
A mais leve brisa me rasga a pele
E escorro gota a gota.
Na madrugada, vejo frestas pelas portas semi-fechadas
Listras brancas pelas ruas indicam partida
Você distante
Você sempre fora do alcance
Como um signo sem tradução
Te pronuncio
Você cala
Como um corpo fechado que dos meus olhos não reage
Ao toque de minhas mãos não cede
Não dilui ao meu contato.
Sua boca me convida e me nega
Você me invade
Com seu corpo
Seu sotaque
Sua tatuagem nas costas
Miro em você meu mais suave desejo
Vejo você nos desenhos dos copos
Beijo sua boca nas vidraças
Me embriago do seu sabor a cada gole
Enlouqueço
Saio pelas ruas por onde antes andava
Grito, danço, suo,
chuva molha minha face
Minha elasticidade congela ao contato das gotas que como punhal me tocam.
Você viaja
Você vaidade
Invade meu quarto com seus mil horizontes
Posta fotos em meu mural
Espalha meus discos
Rouba meus poemas
Me deixa mensagens
Você ironia
Suas roupas de brechó
Seu cigarro
Sua risada
Provoca em mim asco, tesão, calor, medo
Ciúmes, inveja,
ódio,
ódio,
amor, amor, amor
Tudo é desejo
E lágrima
E beijos que não te dei.

INFÂNCIA

Eu tinha medo da noite
mas amava as estrelas.
(in Morte Secreta)

sábado, 20 de novembro de 2010

POEMA - EU E MEU PAÍS

Um parangolé da paz dança no vento
Eu e meu país nos descobrimos iguais

Enquanto tento seguir os rastros da multidão

Me vejo perdido

Eu perdido como meu país

Estendo os braços para um céu sem nuvens

O céu do meu país

Que quando mal tinha o que oferecer furtava de outros

Eu que não furto tenho as mãos vazias estendidas ao ar.



Um parangolé da paz baila no vento

Com suas cores encanta

Como um hino de louvor

Mas quem o vê?

Não eu que tenho olhos fixos

Sempre em direção contrária a que vou seguindo se dar por conta


Eu e meu país nos encontramos num intervalo

Ele cuja história se deturpou e se perdeu

Eu, cujo espelho não reflete senão rugas e imperfeições

Nos encaramos sem pudor

E contemplo minha miséria no seu sorriso sem dentes

E contemplo minha dor no seu olhar de festa

Minha fome registrada em suas

Matas densas

Seus números me decodificam

Suas verdades me sugerem

Suas razões me condenam

E sou o meu país em carne e osso

E em osso e carne meu país se derrama como um rio

Nossas cores se misturam e se dividem

Nossas vozes se confundem e se completam

Uma multidão caminha e é só um

Um parangolé da paz se esvai no vento.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

POEMA - Solidão

A solidão que a dor causa
É a solidão de boneca na caixa
A solidão debelada de boneca na caixa
Que criança alguma jamais tocou.

Núbia Rodrigues

terça-feira, 21 de setembro de 2010

ARTIGO - SOBRE A IDIOTICE


Na antiguidade grega, a palavra idiota significava a pessoa que estava alheia às questões do estado, ou seja, as que, por conseqüência da organização social daquele povo, não participavam do processo democrático. Esse sentindo evoluiu, coerentemente, para alienado e hoje engloba uma série de sentidos que definem uma espécie de pessoa que pouco contribui, mas muito atrapalha o processo de evolução social.
As muitas barbáries humanas, como assassinatos, estupros, roubos, terrorismos assustam, destroem e ferem. As tragédias naturais extinguem países e mesmo, civilizações inteiras. Porém, as pequenas barbáries cometidas no dia a dia por conseqüência da idiotice são piores, porque levam, não só à violência física, mas à violência mental, às doenças graves do corpo e do espírito.
E se na antiguidade os idiotas não tinham vez no processo democrático, hoje eles interferem com suas mãos devastadoras e transformam o diálogo em autoritarismo. E tentam transformar o mundo no universo vil a que estão habituados. O idiota de antes não carregava consigo toda a carga destrutiva que o de hoje possui.
Problemáticas sociais e individuais como analfabetismo, fanatismo, inveja, medo, impaciência prejudicam a vida em sociedade. Mas a pior problemática é a idiotice, porque o idiota é surdo por opção e só escuta e entende o que seu nível de capacidade mental e arrogância são capazes de apreender.
O idiota é cego por seleção. E só enxerga o que lhe convém, e usa a visão deturpada sempre para prejudicar, subjugar ou manipular alguém. Os sentidos do idiota estão sempre com direcionamento depreciativo. Desde o tato ao paladar. Pois não sente outro gosto, senão o da desgraça alheia, não toca em algo senão para danificá-lo
De todos os vermes e cânceres que atingem a humanidade, a idiotice é a pior das dores. De todos os problemas sociais e todas as misérias, a idiotice é a mais agressiva. Porque o idiota adultera o ambiente em que habita. Ele agrega todos os sentimentos corruptos, pobres e podres, todas as misérias, todas as moléstias que permeiam o espírito humano.
O idiota é o mais ordinário dos ignorantes, porque, na sua idiotice, não se compreende ignorante, mas sabedor daquilo que não é capaz de assimilar. O idiota é um ser corrosivo, nocivo por natureza. A idiotice é uma doença tão grave, que qualquer esperto, mesmo cético diria: Deus me livre da idiotice.
Núbia Rodrigues